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O Regresso do Morto-Vivo (ou como a IA me obrigou a trabalhar na reforma)

 Quem me conhece sabe que, no ano passado, arrumei definitivamente os manuais, fechei o giz no armário e decretei a merecida aposentação. Com isso, o EconomiaX — o blogue que alimentei durante 18 longos anos com o suor das minhas aulas de Economia — foi solenemente declarado "arquivo histórico". Estava estático, fossilizado e em paz. Ou assim pensava eu.

Acontece que a Inteligência Artificial, que em 2022 entrou pelas nossas vidas dentro com o ChatGPT e as suas deliciosas "alucinações" (que tanto enriqueceram o nosso anedotário e desculparam trabalhos de alunos preguiçosos), decidiu evoluir. E evoluiu de uma forma que ultrapassou os meus melhores sonhos — ou pesadelos, dependendo da perspectiva.

Resultado? Não resisti ao canto da sereia tecnológica e quebrei a promessa de não voltar a tocar no blogue de trabalho.

O EconomiaX tem agora uma novidade pomposa: um botão de chat com um assistente virtual, orgulhosamente criado no Botpress.

Sim, caros leitores, o meu alter ego digital nasceu. E desengane-se quem pensa que ele vai começar a inventar teorias económicas ou a divagar sobre a imortalidade da alma. Este assistente foi treinado apenas e só com os materiais que eu próprio escrevi no blogue. Significa isto que não alucina e, numa demonstração de rara lucidez (e de uma humildade que falta a muitos humanos), assume quando não sabe e diz abertamente que não dispõe de informação.

Funciona que é uma maravilha na quase totalidade do curso. No entanto, como qualquer recém-nascido, tem os seus pequenos... "pormenores":

  • A economia portuguesa no contexto da UE: Neste último ponto da matéria, o assistente confessa-se um bocadinho anémico. A culpa é minha, admito, que ilustrei a coisa com fartura de imagens no Google Fotos. E o nosso brilhante assistente, coitado, ainda não aprendeu a "ler" fotografias. Olhar para imagens e retirar dali análises conjunturais está além das suas capacidades actuais.

  • A resolução de Exames: A joia da coroa das minhas aulas — a resolução de questões de exame passo a passo, desmontadas por diversos processos — era o terror dos alunos e o orgulho do professor. Pois bem, essas resoluções eram esquemas visuais guardados no Google Drive. O bot também não consegue ler o Drive. Portanto, o ponto mais forte das aulas é, por agora, o ponto mais... invisível para a máquina.

Ainda assim, tirando estes ligeiros detalhes de cosmética informática, o assistente responde a (quase) tudo. E tenho de lhe reconhecer uma enorme vantagem em relação ao autor destas linhas: tem muitíssimo mais paciência para repetir a mesma definição de Custo de Oportunidade do que eu alguma vez tive em 40 anos de carreira.

Passem por lá, piquem o miolo ao assistente e vejam se a máquina honra o legado. De resto, volto para a minha reforma. Até à próxima actualização forçada pelo progresso.

O Fantasma na Máquina: A Ressurreição de 2005

Constata-se frequentemente que as teses académicas partilham de um destino comum e trágico: após a consagração pública perante o júri, são votadas ao repouso eterno nas estantes mais sombrias de uma biblioteca, convertidas em monumentos de papel que acumulam poeira e dignidade, perfeitamente distantes do bulício do mundo real. Julgava-se que a minha tese de Mestrado, Entendimento Professoral da Avaliação, datada de 2005, repousava nesse limbo confortável da arqueologia intelectual.

Pois bem, desenganem-se os cépticos. O determinismo tecnológico pregou-nos uma partida sociológica.

Através das artes da Inteligência Artificial, a referida tese recusou-se a permanecer desactualizada e foi ressuscitada sob a forma de um assistente digital — o Magister Veredictus. O que dantes era letra morta em papel é agora um algoritmo treinado, pronto a dissecar o mundo com o rigor de Boltanski e Thévenot e a destrinçar as economias da grandeza que governam a alma dos nossos professores.

É irónico, não acham? No preciso momento em que a comunidade educativa desespera com o impacto da IA na avaliação escolar, surge uma criatura digital cujo único propósito na vida é... analisar sociologicamente como os professores justificam as suas notas e protegem o seu julgamento contra a frieza das máquinas.

O assistente virtual já se encontra em funções neste espaço, blindado com o espírito crítico de 2005 e perfeitamente imune às tentações do Acordo Ortográfico de 1990. A sociologia da avaliação não morreu; apenas trocou a celulose pelos semicondutores.

Fiquem atentos aos veredictos do assistente virtual Magister Veredictus, mas por razões de privacidade, para que o vosso assistente consiga ler a tese, têm que pedir acesso.


A Missão do Magister Veredictus

Como assistente de investigação da tese, o Gem foi configurado para desempenhar três funções analíticas claras:

  • Mapeador de Cidades (Regimes de Justificação): Analisar discursos, entrevistas de professores ou relatórios de avaliação para identificar qual a "Cidade" dominante (Industrial, Cívica, Doméstica, Inspirada, etc.) que o corpo docente mobiliza quando justifica as notas aos alunos.

  • Descodificador do Julgamento Actuante: Ajudar a isolar os momentos em que o professor está a avaliar "em acto" (na dinâmica da aula) e como esses momentos entram em tensão ou em acordo com as directrizes formais da instituição.

  • Analisador da Prova (Épreuve): Examinar os instrumentos de avaliação (exames, grelhas de critérios) enquanto objectos materiais que estabilizam a disputa e encerram o julgamento na classificação final.


Porquê Magister Veredictus?

  • O "Magister" evoca o movimento, a interacção quotidiana na sala de aula, o tal julgamento actuante onde o professor observa, corrige, orienta e avalia o desempenho em tempo real.

  • O "Veredictus" surge como o culminar desse processo. É a prova (épreuve) que chega ao fim. Quando o Magister pronuncia o seu veredicto a fluidez da acção cessa e o aluno é fixado, categorizado e cristalizado numa classificação oficial (seja um 10, um 20, um "Suficiente" ou um "Excelente")

Semáforo Benjamin Graham: O Modelo Automatizado de Valor Intrínseco Já Está Disponível

 Num momento de forte volatilidade das carteiras de títulos, onde as constantes "trumpalhadas" macroeconómicas e geopolíticas nos obrigam a ser ainda mais cuidadosos, a procura por uma âncora racional torna-se imperativa. Foi precisamente este cenário de incerteza global que me estimulou a desenvolver esta folha de cálculo, resgatando a abordagem clássica da fórmula de avaliação de Benjamin Graham exposta no livro Security Analysis.

Esta folha foi desenhada para funcionar como um filtro inicial de protecção contra o ruído e as armadilhas emocionais do mercado de capitais.

O que é o Semáforo Benjamin Graham?

O modelo analisa em tempo real os dados financeiros disponíveis e emite um veredicto visual instantâneo para a composição da sua lista de observação (watchlist):

  • Comprar: Activos que, à luz da fórmula, oferecem a Margem de Segurança exigida.

  • Manter: Acções cotadas a um preço próximo do seu valor estimado.

  • Vender: Títulos teoricamente sobreavaliados onde o risco de perda de capital aumenta.

Transparência e Limitações do Modelo

Como investidores assentes na análise fundamental, devemos olhar para os números com total pragmatismo. É necessário sublinhar que o rigor do modelo mecânico se encontra limitado pelos dados do EPS (Lucro por Acção) fornecidos directamente pelo GOOGLEFINANCE, que se referem ao período mais recente e não à média de 7 a 10 anos recomendada originalmente por Graham para normalizar os ciclos económicos. É o que o sistema nos oferece de forma automatizada por agora.

Mais importante ainda: o investidor nunca deve confiar num só indicador. Esta folha não faz milagres sozinha nem substitui uma análise holística; contudo, pela sua simplicidade de estruturação e rapidez de leitura, continua a ser uma excelente ferramenta de triagem e um óptimo complemento a outros critérios de avaliação.

Blindagem de Segurança

Para evitar conclusões erróneas baseadas em dados corrompidos, a folha foi programada com rotinas automáticas (via Apps Script) que suspendem os cálculos e exibem o aviso cinzento de Análise Externa sempre que se depara com:

  1. Sectores Especiais: Empresas que exigem métricas alternativas, como o sector bancário ou os REITs imobiliários.

  2. Prejuízos Recorrentes: Empresas com EPS negativo.

  3. Falhas de Sincronização: Ausência temporária de rácios nos servidores da Google.

Quer ver o modelo em acção? (Demonstração Gratuita)

Antes de qualquer decisão, convido-o a entrar na nossa montra pública para analisar a paginação, a estrutura e a lógica visual do simulador:

👉 CLIQUE AQUI PARA ACEDER AO MODELO DE VISUALIZAÇÃO 


Como Adquirir a Sua Cópia Funcional Autónoma

Se deseja implementar este ecossistema automatizado no seu próprio Google Drive — com total liberdade para introduzir os seus tickers, monitorizar o seu portefólio multi-moeda e ajustar as yields macroeconómicas de referência e a sua margem de segurança —, o processo de aquisição é muito simples:

  1. Envie um Pedido Privado: Através do botão de pedido de partilha do próprio ficheiro de visualização, manifeste o seu interesse na compra. Na caixa de mensagem do pedido, indique obrigatoriamente o seu número de telemóvel associado ao serviço MB WAY e o endereço Gmail onde pretende receber a cópia funcional.

  2. Liquidação Segura: Receberá no seu telemóvel um pedido de pagamento MB WAY de 10€, correspondente ao valor do simulador.

  3. Entrega Imediata: Assim que a transacção for confirmada, o acesso será libertado para o Gmail indicado através de um link exclusivo de duplicação. Esse link criará, com um único clique, uma cópia integral, limpa e independente do simulador na sua conta Google Drive, com todos os scripts e fórmulas incluídos.

Filtre o ruído do mercado, proteja o seu capital e regresse às origens do investimento em valor com a solidez que a escola clássica preconizou.


🤖 Dúvidas sobre o Semáforo Benjamin Graham? Faça as suas perguntas directamente ao Benjamim, o nosso assistente inteligente! 

O Dia em que a Silicon Valley foi Goleada por um Lanche no Centro Comercial

Há dias em que a modernidade tecnológica decide morder a própria cauda, proporcionando um espectáculo digno de registo a qualquer observador atento das nossas dinâmicas sociais. O protagonista da patuscada desta semana? O meu estimado Google Pixel 8.

Tudo começou com uma bela tarde de sol em Coruche. Trinta e dois graus no termómetro e o telemóvel a servir de GPS no carro. A meio da viagem, o ecrã do Pixel — que pelos vistos sofre de uma sensibilidade romântica ao calor — decidiu manifestar o seu desagrado ficando completamente verde. Um verde alface, garrido, impossível de ignorar. Hardware em stresse, diagnóstico claro: ecrã nas couves.

Sabendo que a própria Google reconheceu um defeito crónico nestes painéis e alargou a garantia, recorri ao suporte oficial da marca via chat. E foi aqui que entrei numa dimensão paralela que faria o funcionário mais ranzinza de uma antiga Repartição de Finanças parecer um modelo de eficácia e flexibilidade.

Primeira pérola da assistente do outro lado do mundo: o meu Pixel, cujo IMEI foi devidamente verificado, teria sido "fabricado em Espanha". Ora, todos sabemos que os semicondutores e a montagem destas peças raras vêem da China, mas quem era eu para contrariar a nova geografia corporativa da Silicon Valley? O problema é que, por ter essa suposta certidão de nascimento espanhola, a Google exigia-me 153€ pela reparação em solo português. Injusto, mas vá lá, a urgência de comunicação impunha o pragmatismo. Aceitei pagar.

E aí atingimos o pico do absurdo kafkiano.

Para pagar os tais 153€, a multinacional exigia um cartão de crédito com validação obrigatória por 3D Secure. Para os menos avisados, isto significa que, para concluir o pagamento no computador, o banco envia uma notificação ou um código para... o telemóvel. Sim, caros leitores, para consertar o ecrã do smartphone precisava de autorizar o pagamento, com o tal ecrã pifado.

Perante a pescadinha de rabo na boca, tentei a bonomia lusa: — “Não me pode dar uma referência Multibanco? Silêncio do outro lado. A assistente entrou em curto-circuito e pediu-me tempo para pesquisar... No quartel-general da Google, a fantástica e evoluída rede SIBS que gerencia os nossos pagamentos há décadas é um mistério tão insondável como a Atlântida. — “E uma transferência por IBAN? Ou pagamento à cobrança na entrega?”“Impossível, senhor José. Só cartão de crédito.”

A maior empresa de tecnologia do planeta conseguiu criar um bloqueio burocrático-digital absolutamente intransponível para si própria. A situação tornou-se tão surreal que a própria assistente da Google, a quem chamarei Esmeralda, acabou por me perguntar, num laivo de desespero, se eu não teria porventura um amigo em Espanha. Se eu conseguisse inventar uma morada do outro lado da fronteira, o sistema lá aceitaria a gratuitidade! É extraordinário: perante a rigidez de um algoritmo cego, a própria funcionária da Silicon Valley viu-se forçada a sugerir uma manobra de desenrascanço digna do mais puro engenho luso para tentar ludibriar a inteligência artificial da sua própria casa.

Como a perspectiva de ficar um mês isolado do mundo — e das minhas aplicações bancárias — à espera que a burocracia ibérica da Google se decidisse era absolutamente deprimente, recorri à velha máxima de que os grandes problemas resolvem-se localmente.

Fui ao centro comercial. Enquanto desfrutava de um lanche descansado, os técnicos de uma conhecida loja de assistência rápida (a iServices) trocaram-me o ecrã por um original em menos de uma hora, carimbaram-me três anos de garantia na peça e devolveram-me o Pixel 8 impecável. Tudo pago, na hora, sem necessidade de consultar mapas de Espanha.

A Silicon Valley que me desculpe, mas contra a eficácia de um balcão de vão de escada e de um pastel de nata, o vosso algoritmo não tem a menor hipótese. O Gemini até diz, com alguma graça, que a iServices parece “um balcão de vão de escada” por ser um autêntico templo dedicado aos iPhones; mas a verdade é que a Google deveria equacionar seriamente um acordo com a melhor reparadora de smartphones e watches do nosso mercado. Em vez de nos empurrarem para a Worten, que repara desde frigoríficos a computadores e mais não sei quê, ganhariam muito mais em apostar na especialização. Tenham paciência, senhores da Google: chegaram a este mercado muito depois da Apple, e a melhor maneira de continuarem a conquistar-lhe quota de mercado não é com burocracias ibéricas, mas sim através da plena satisfação dos clientes.

📙 O Milagre de Fátima, a Teoria dos Jogos e a Folha de Salários

 O futebol português tem esta beleza transcendental: é o único sector da economia nacional onde um operário que ganha o salário mínimo consegue, durante noventa minutos, encostar à parede um executivo que aufere em duas semanas o equivalente ao PIB de uma pequena autarquia.

No último fim-de-semana, o Sporting juntou-se ao clube dos gigantes surpreendidos ao dobrar-se perante o Torreense. Juntou-se, aliás, a um historial recente de sobressaltos, lembrando-nos daquelas jornadas anteriores em que o Porto claudicou perante o Aves e o Benfica descobriu, frente ao Casa Pia, que o dinheiro não compra imunidade contra a audácia dos pequenos. Nos cafés e nas redes sociais, o veredicto foi unânime: “Isto é uma vergonha! Ganham milhões e não correm! Acabe-se com a relação entre o salário e a produtividade!”

Calma, caros leitores. Como diria qualquer economista com um pingo de juízo (ou de cinismo), não confundamos a volatilidade de um domingo chuvoso com a solidez das leis do mercado.

A Produtividade Marginal do "Chuto para a Frente"

À primeira vista, o adepto furente tem razão. Se o ordenado de um único suplente do banco de um "Grande" dava para pagar três anos de salários a todo o plantel do Torreense, a produtividade — medida em golos por euro investido — parece um insulto à matemática.

Mas a economia do desporto é uma ciência subtil. Os clubes grandes não pagam milhões pela certeza; pagam pela redução da incerteza. Aqueles salários pornográficos servem para garantir que, em trinta e quatro jornadas, a lei dos grandes números prevalece. O milagre do "tomba-gigantes" é como ganhar o Euromilhões: acontece, faz uma bela reportagem no telejornal, mas ninguém constrói um plano de negócios baseado na fé. No final de Maio, a correlação entre a folha salarial e o topo da tabela é tão certa como os impostos.

O Torreense teve a sua tarde de glória. O jogador do Casa Pia correu como se a sua vida dependesse disso. Mas a segunda-feira chega para todos, e a gravidade económica nunca falha.

A Nobre Arte do Bode Expiatório

E depois temos a mecânica dos despedimentos, esse monumento à racionalidade jurídica. A equipa perde, a estrutura vacila, e quem vai para a rua? O treinador, pois claro.

Aos olhos do cidadão comum, isto é uma injustiça medieval. Afinal, quem falhou o golo de baliza aberta foi o avançado de vinte milhões, não o senhor de fato e gravata que esbracejava na linha lateral. Porque é que não se despedem os onze faltosos?

A resposta está na contabilidade pura e dura:

  • Despedir o plantel: Implica rescindir vinte e cinco contratos blindados, pagar indemnizações que abririam um buraco negro no balanço do clube e deitar ao lixo os direitos económicos (o "passe") dos atletas. É a falência técnica por via do orgulho ferido.

  • Despedir o treinador: É barato. Rescinde-se com um homem (e mais três ou quatro adjuntos), paga-se o remanescente do ano e finge-se que o problema era o "sistema táctico".

Mudar de treinador a meio da época não é uma decisão desportiva; é um acto de sinalização ao mercado. É a administração a dizer aos sócios e aos accionistas: “Vejam como nós agimos!”, enquanto os jogadores, no balneário, continuam a receber o seu precioso dividendo, intocáveis na sua condição de activos imobilizados.

Nota de Rodapé

Não fiquem tristes pelos Golias caídos. O mercado perdoa o luxo e pune a pobreza. O futebol continua a ser o sítio onde a mais-valia é uma ilusão de óptica e onde o único verdadeiro milagre é ver como tanta incompetência de gestão continua a ser financiada pela paixão de quem paga o bilhete.

Até ao próximo Domingo, onde a lógica voltará (provavelmente) a reinar. Ou não.

 

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